Renascer
No cimo de uma fraga, contemplo um horizonte enevoado, baço, tisnado de cores pardacentas. Escrevinho umas linhas, exorto as aves marinhas que, grasnando no céu, anunciam um novo dia noutra longitude. Algures onde eu não situo. Perseguem a luz, enquanto eu, imerso num escuro crescente, prossigo a escrita, acompanhado pelo marulhar das ondas, desacompanhado das aves agora sumidas, dos ecos bafientos da civilização liberal, apagados pelo tumulto do litoral… A escrita é pungente, demolidora, ressurgida da escória destes pensamentos ocos que me conspurcam a alma. As ondas recrudescem iradas à minha volta, rosnam de fúria e ameaçam o meu equilíbrio. No topo, cedo ao medo que me tolhe a coragem. A queda iminente não se consuma, embora me sinta inexoravelmente à mercê das águas, da rocha dura que se torna escorregadia e me deixa vacilante num ilhéu de uma ilha. Capitulo ao juízo final, agarrado ao que me resta. Só eles me restam: a caneta e o papel. Cerro os olhos, pego-lhes, vencido, derreado por um torpor que não deslindo. Sou impelido para a escrita, fazendo-o sofregamente, sem parar, expiando este ócio pernicioso que me corrói. Nas trevas, a caneta não cessa, prossegue e aliena-me da tempestade. Rascunha possuída, possessa. De entremeio, leio no escuro as palavras soltas, desconexas, familiares entre si. Separo-as em grupos, oriento-as pelo astrolábio das estrelas, arranjo-as em frases, parágrafos fecundos, textos que recolhem a harmonia do porvir. Não me dou conta do passar das horas, da lucubração desta noite escura, ou da depuração da luz que ressurge no horizonte, resplandecente, irisada nas margens das nuvens esparsas que se esquadrinham no meu olhar. Os pássaros preludiam as laudes e gracejam em rodopios pueris e alvos, enquanto eu, purificado, regresso devagar, sereno, resolutamente ao encontro do desfiladeiro que me enleia e acolhe como um filho pródigo.
Foto: Duarte Olim
13 Comments:
Bem-vindo de volta caro amigo. Bem-vindo de volta!!
Duarte,
Essa caminhada valeu a pena, acompanhei-te!
Um beijinho, sejas muito bem-vindo.
Welcome!
As suas palavras provocam em mim uma coisa bizarra-Faz-me gostar de viver na Madeira, e sentir orgulho de ser madeirense...coisa que muitas vezes não posso dizer que sinta...
Valeria Mendez
Já o confessei, num contacto pessoal. Agradeço-te, caro Duarte, emocionado pela ressurreição deste desfiladeiro, de onde se despenham letras hipnóticas.
Obrigado.
Olá Duarte!!
Estás de regresso....que BOMMMMMM!!! :))))
Renascer??? hum!!
Lindo o que acabei de ler:)
Beijinhossss
:))
Bem vindo... Beijinhos
E que bom que a escrita sobreviveu... e neste desfiladeiro veio de novo escudar-se para gaudio de olhar nosso...
Bem vindo de novo!
jinhos
Eu sabia que não ías ficar muito tempo sem escrever no D e s f i l a d e i r o... :) Fico muito contente por estares de volta amiguinho!!! Bjinhos
e vim de novo e voltei a apreciar e...como gosto!
jinhos
Olá Duarte!:)
bom regresso, amigo.
um abraço.
Voltei para renascer...renascendo te abraço, amigo.
Palavras lindas de se ler e sentir... como sempre. Beijinhos
"... Impelido para a escrita, fazendo-o sofregamente, sem parar... a caneta não cessa, prossegue e aliena-me da tempestade..." Amiguinho João, que bela surpresa tive hoje, ao entrar no teu blogue!
É com esta descrição que te identifico... amigo da caneta, do papel, do devaneio. Das tempestades (in)contidas, que essa alma fugaz teima em sobressair...a tua escrita é sempre um bálsamo neste desfiladeiro que nos prende a atenção e o olhar...
Bem vindo
beijo
Di...
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