Quarta-feira, Julho 22, 2009

O Grotesco ao Som do Tecno


A testemunhar pelas emissoras de rádio, pela sonoridade difundida nos transportes colectivos, automóveis, no ruído que derrama dos bares ou similares de restauração, aqui a modernidade tem um nome: música electrónica ou tecnoqualquercoisa. Daquela repetitiva, de arranjos simples, primários, de efeitos entendiantes. Numa expedição ao Dniepre, ao fim-de-semana as embarcações acolhem muitos ucranianos que, ávidos de calor e sol, expurgam o marasmo acumulado no Inverno com a receita apropriada: música a preceito que, aqui, habitualmente utilizamos em discotecas, mas num ambiente a condizer e devidamente circunscrito. A julgar pela adesão dos barqueiros, todos eles equipando a sua embarcação de potentes colunas, pelo Dniepre acima compete-se a ver quem excede quem em decibéis. Ousei pensar que uma embarcação destas no Sena seria imediatamente fuzilada ou justificaria umas quantas greves dos operadores turísticos parisienses que, na cidade-luz, promovem estes passeios com outro primor, ou ainda revolta dos que pautam o seu negócio envoltos numa aura aprazível de recato e assaz bom gosto. Aqui, pelo Dniepre e nos espaços destinados à fruição da população, a música tresloucada convida a beber, a fumar, a ensaiar um pé-de-dança; é realmente embrutecedora, tornando o momento mais esquizofrénico, indiferente a qualquer lisura que a paisagem pudesse proporcionar; se é uma forma de expurgar o marasmo que habita nestas gentes, permitindo-lhe dar largas ao absurdo para esquecer as provações quotidianas da vida ucraniana, desconheço. Pressenti, isso sim, que Emir Kusturica realizaria mais uma película do género grotesto e satírico, inspirando-se neste cenário. Dar expressão à alegria não é condenável, bem pelo contrário, mas estes passeios são estupidamente saloios e condicionam a sua fruição a outras classes etárias, a potenciais turistas para quem o Dniepre poderia oferecer uma comprazível distracção. Antes prefere-se pautar o ambiente por este frenesim histérico, propenso a cefaleias e indigestões.

O fim-de-semana, nesta estação onde o sol começa a prodigalizar uma temperatura agradável, leva a este exagero. Os ajuntamentos jovens fazem-se por variadíssimos locais, e ao contrário do que se esperava, um passado sofrido de um povo mártire pelas condições em que viveu, contrasta com esta efusividade desgarrada.
E se estes sinais podem ser conotados com modernismo retardado, avistado um par de moças a passear de mão dada pode suscitar equívocos, caracterizando uma sociedade desprovida de preconceitos, tolerante, progressista. Foi assim que fiz a minha interpretação, mas fui rapidamente elucidado que aqui não abundavam as lésbicas (à vista desarmada), mas que as garotas jovens estavam acostumadas a passeios com esta intimidade. Consta mesmo ser comum mulheres mais velhas caminharem de gancho, numa demonstração de afecto que normalmente tendemos a atribuir a povos mais calorosos no trato… puro engano.

Segunda-feira, Julho 06, 2009

Do Ouro das Cúpulas…


Avistam-se de quase todos os pontos da cidade. São mensageiras que ligam o mundano ao divino, antes que o profano esmague as bençãos imprecadas ou os créus descubram a falácia. Mas nem assim deixam de reluzir a todas as estações, teimando no dourado, imunes à corrosão, agrupando-se delicadamente num núcleo de mosteiros sobranceiro ao rio, ou simplesmente pontilhando a metrópole em pequenos núcleos que se erguem dos alicerces de igrejas catitas, convocando a miséria e a penúria para a oração, mostrando uma nova ordem, prometendo a esperança numa vida mais venturosa no porvir, porque nesta, nas condições que se observam, ela exibe-se dura, injusta e crua.
A doutrina ortodoxa exibe estas cúpulas faustosas, algumas graciosas, enquanto no interior do seu espaço de culto, reina uma decoração discreta, desprovida de estátuas magoadas, enriquecido por uma atmosfera calorosa, sombria e aconchegante. Os cânticos ortodoxos inundam de paz infinita quem os ouve, não há crente nem incréu que não suavize a sua iniquidade exposto a essas vozes celestiais.
Rio acima, a cidade parece não ter fim e as cúpulas acompanham-na para que não haja desnorte religioso. Elas assomam por entre arvoredo e ainda resistem aos prédios circundantes que tendem a insubordinar-se insolentemente contra a sua reverência, por desrespeito ou por espelharem a prevalência avassaladora do profano sobre o sagrado. O ouro exuberante ergue-se para os céus, espaventoso, como se daquelas cúpulas houvesse um aceno a deus, desesperado, corrompendo-o com ouro.


As estátuas que as igrejas ortodoxas não exibem, encontram-se espalhadas ao longo da cidade, alcandoradas para o rio. São elas símbolos do país, dos fundadores da cidade que se equilibram numa barcaça, santos padroeiros e outros heróis que materializam as memórias do passado. Há um arco metálico que simboliza a amizade celebrada, de duração risível, entre países irmãos como são a Ucrânia e a Rússia. Serve o arco da amizade de espaço de actividades lúdicas, esperando que neste exercício cultural seja resgatada a amizade que as diplomacias não conseguem.
Recordo ter lido menções a cidades das mil torres, cidades douradas, mas Kiev não é menos dourada. Os sinais de um passado recente desditoso e fértil em calamidades, guerras, acidentes fatídicos como o flagelo funesto de Chernobyl, entre outros massacres ocorridos na 2ª Grande Guerra que o povo ucraniano decidiu lembrar, está patente num museu evocativo da efeméride, para que a memória não esqueça… Nesse lugar ergue-se com invejável elegância, grandiosa postura, uma mulher de braços levantados ostentando sinais da libertação e da glória. Sob a sua jurisdição está o edifício que acolhe o museu mais emblemático da cidade, que não conseguiu dissociar-se dos traços bélicos. De contrapeso serve o manto verde que bordeja o Dniepre, restaurando a harmonia e a paz; é constituído por castanheiros, bétulas, freixos, choupos e outras caducifólias, que a perenidade não resiste aos rigores de inverno.
Kiev tem charme, colinas, tem uma rua pitoresca, antiga, ramificada por alguns atalhos antigos; toda esta área é comparada por alguns ao bairro de Montmartre em Paris. Parece-me exagerado, mas estas tentativas só vêm menosprezar a singular identidade dos lugares. Incomparáveis e obscenas são as antípodas reinantes: riqueza e pobreza. Não culpabilizo as cúpulas ortodoxas por esta discrepância, nem sei se deslindarei as suas razões.

Domingo, Junho 28, 2009

Neva na Primavera Ucraniana


Estranha o meu leitor, tal como eu estranharia se omitisse os detalhes do que assisto: aqui, um pouco por toda a parte, há uma brisa primaveril que arrasta consigo pequenos flocos brancos. Se não fosse primavera e a temperatura não estivesse amena, atribuiria o fenómeno a mais uma judiaria do tempo. Mas estes flocos não são de neve, embora faça sentido essa parecença numa cidade cuja neve faz aparições frequentes e onde o rio chega a congelar durante meses consecutivos de inverno. É uma neve inusitada, recriada pela queda da flor dos Castanheiros que, nesta altura, se exibem floridos, frondosos e que dotam a cidade de uma identidade própria. Ao ser varrida por esta aragem fresca e ousada, oriunda do Norte, estes flocos florais caiem oblíquos e adejam ao sabor do vento e dos caprichos que o impulsionam. O toque destes flocos na pele é sedoso e singelo, porém seco e tépido, o que o distingue dos verdadeiros cristais de neve, brandos e gélidos. Deve ser por saudosismo, mas este cenário convoca o Inverno, revisitando-o no remanso da amenidade primaveril. A abundância verdejante que orla as ruas, o rio e todos os espaços, assegura que esses flocos se espalhem por toda a urbe. Além espraia-se a metrópole que já derreteu o gelo inicial da minha chegada e que aos poucos me vai maravilhando. Deleito-me no verde imenso, ou não fosse deste verde que, na minha geografia, emana a esperança, e aqui desabrocha o nevar. E de graciosidade a cidade é pródiga; é no seu encalço que rumo pelo seu âmago, voltando de seguida à foz onde desaguam as palavras.

Terça-feira, Junho 16, 2009

Chegada Nebulosa


Mergulhei na bruma densa que cobria os campos marginais do rio Dniepre. Uma nebulosa pairava sobre a terra plana, estendendo-se viscosa pelos arrabaldes, cobrindo campos e deixando desguarnecidas as sebes delimitadoras, dispostas em esquadria, formadas por choupos e talvez freixos. O mosaico resultante era aquoso, parcialmente líquido, demasiadamente vaporoso. Era difícil decifrar onde começava a terra e terminava o rio, onde começava o sonho e findava a realidade. As tonalidades da aurora não prodigalizavam uma manhã resplandecente. A alvorada iria dissipar as minhas dúvidas, porém, este cenário apocalíptico, plúmbeo, desolador, dominado por gases que pensava estarem devidamente canalizados, indiferentes às polémicas invernais que confrontaram as diplomacias russas e ucranianas, intrigavam-me. Não seria mais uma catástrofe, uma réplica de Chernobyl que fatalmente me colheria, mas gaseificada? A minha aterragem foi precedida por este avistamento aéreo, mediada pelas operações que no virar do aeroplano, mostravam uma amplitude maior do panorama aéreo; foi sucedida pelo júbilo dos emigrantes à chegada. Indaguei se não teriam sido acometidos por um assomo de saudade, aquela que tanto nos orgulha e nos faz apropriarmo-nos dela, como se de uma razão primordial se tratasse. Sem tempo para dissertar sobre este encriptado sentimento, recordo que temi pousar num pântano, mas a exultação dominante, visível em rostos estremunhados, fez-me acreditar em melhor ventura. Ainda fui assaltado por pensamentos pessimistas que evocavam a incredulidade de todos quantos não entenderam a minha escolha. Quase sem excepção, a incompreensão reinou. Todavia, este ou a maioria dos países de imigração de Portugal estão conotados com a miséria, com a fealdade, como se os emigrantes viessem de um lugar amaldiçoado. Tendemos a rotular ainda os seus habitantes de rudes, pérfidos e frios… aqui exceptua-se o Brasil e outros países costeiros contemplados com praias e cenários tropicais. A maioria insciente esquece que a Ucrânia também reúne algumas praias, e que no Sul existe uma península chamada de Crimeia, de belezas e riquezas arqueológicas ímpares que quase rivalizam com as existentes na Grécia. Imensas praias banhadas pelo mar negro que, não apenas banham a península, como outra parte da costa meridional do país.

Lá fora, todo este cenário sumiu-se; em menos de nada, vi-me a circular depressa numa avenida infinita. No avião que me trouxe, nem sinais de portugueses. Definitivamente este não era destino de férias. Mas aqui estava eu, após um devaneio mental que se afigurava o melhor prelúdio para antecipar a minha chegada à Rússia. Descobri que aqui, nesta terra abençoada por um rio imenso, por pequenas colinas verdejantes constituídas maioritariamente por Castanheiros, algumas Bétulas e Choupos, morava a mais antiga capital da Rússia: a cidade mais ancestral dos eslavos. A escolha deste lugar ficou a dever-se à sua excelência, protegida pelas colinas que vigiam um vale abrigado onde foram edificadas as primeiras habitações, com uma porta fácil para o rio. Estrategicamente favorável, a localização da urbe beneficiou da sua confluência com o comércio de cerâmica, metal e outros bens entre o Mar Báltico e o Mar Negro.
A avenida rectilínea que me acolheu decepcionou-me à medida que a cidade se aproximava. Senti um estremecimento pela opção. Que vazio! Que lugar sem harmonia! Estaria o condutor transportando-me para lugar incerto e sinistro. A dimensão parecia desproporcionada para o que idealizei como cidade e como espaço de bem-estar social. Aprazível somente a luz que irrompia tão prematuramente. A música do rádio vomitava uma batida electrónica elementar, deixando o condutor ufano pela modernice que julgava exibir. Na arquitectura o pasmo foi maior, as obesidades suburbanas misturavam os prédios vetustos do tempo soviético, opondo-se aos edifícios muito modernos, de desenho arrojado, de arquitectura dominada pelo envidraçado, de duvidosa estética. A combinação revela-se pouco harmoniosa, embora a longa avenida continuasse a ser intercalada num dos seus flancos por árvores. Arranha-céus e portentosos painéis de publicidade – alguns de grafismo piroso –, foram antecipando a chegada ao centro; atravessado o rio avistei algumas colinas, muito verde, e nas ilhargas, prédios, edifícios altos e esboroando-se de vetustez.
Kiev exibia-se estremunhada, esparsas pessoas percorriam-na, mas alguns carros iniciavam a cruzada de mais um dia, não obstante ser fim de semana. O sol brilhava, mas os termómetros em placares electrónicos indicavam os ainda arrepiantes 3 graus positivos – convém distinguir porque pode descer abaixo de zero. Gélida a recepção, fria a impressão, quase de decepção, de justificar a interrogação: que faço aqui? Onde me meti?

Terça-feira, Fevereiro 03, 2009

Imprecação



Não sei o que guardo nestas mãos que insistem em permanecer frias. Talvez retenha nelas o inverno da vida ou a dormência da esperança. Anseio pela seiva que me há-de abrolhar ramos profícuos e gomos florais.
Lá distante, onde a vista quase não alcança, meço o negrume infinito que cerca a ilha e quase não avisto o mar, ou é este que se dilui em vagas sôfregas que agudizam a frieza destes dias e devoram a bonança. À superfície esboçam-se retalhos nebulosos que lhe desalinham a quietude habitual. Ai o mar, é ele que tanto me abraça, e, na mesma proporção me afasta do meu fito. Qual fito? Ao menos se eu lhe descortinasse a silhueta, nem que fosse um fugidio espectro. Só sei que é esta intensidade de azul que me irradia paz quando a tempestade simula feições pungentes de fúria e medo. Para Nordeste há um Minho misterioso escondido na bruma e revestido por musgos que escondem a génese primordial granítica. É claro e sarapintado, de gema leitosa, com dureza afim a este basalto que do seu negro me cansa. E se, em vez destes alinhamentos negros, emergissem da terra contumazes afloramentos graníticos, que paisagem me restaria? Quiçá a ilha desmaiasse por incompatível atavismo com a identidade insular. Quanto eu me regozijaria desse desfalecimento, para que, dessa metamorfose, se expurgasse este marasmo que reina, ou a perfídia que teima em habitar as gentes. Ó pátria, se soubésseis ao menos o quanto nos tolhe a mesquinhez que grassa, ou quanto desta maledicência dissimulada inferniza quem aqui reside. Não bastava saber que destituídos nos levam ao leme, e que a burrice está elevada a uma forma consagrada de ciência. Urge saber, quem nos valha!?

"Há tantos burros mandando em homens de inteligência que às vezes fico pensando que a burrice é uma Ciência"

Ruy Barbosa

Terça-feira, Janeiro 20, 2009

Um Americano em Bucareste



Entre o alvoroço da estação ferroviária e a desorientação própria do prelúdio de uma viagem, fui afortunado à terceira tentativa para que alguém me elucidasse sobre qual era a minha carruagem de comboio e assento respectivo a que tinha direito. Isto aconteceu na Gara du Nord, em Bucareste. Antes de vos falar da personagem que se me cruzou no caminho, informo-vos que me desenvencilhei razoavelmente do dilema (com alguma ajuda romena). As informações normalmente eram insuficientes, resolviam somente metade dos meus imbróglios. E sabendo que aquela indicação era meio caminho andado, fui conduzindo pelo corredor do primeiro andar da diligência, que mais tarde soube ser destinada à 1ª classe (por norma, aprecio apenas 2ªs classes, seja onde for). Posto isto, depreendi que o meu número – elevado demais para ter existência neste comboio – não constava. Por entre algumas inquirições, desisti, só encontrando indulgência na expressão resignada de um homem que se demorava no hall da entrada da carruagem, plácido, exibindo uma pose confiante e despreocupada. Munia-se de uma risível mochila em miniatura, vermelha, nada condizente com a sua roupa executiva. A camisinha de manga curta parecia desadequada ao frio outonal pungente. Sem esboçarmos qualquer diálogo apercebemo-nos que estávamos unidos pelo mesmo embaraço. Detive-me, saí, mas à cautela, entrei, não fosse a locomotiva iniciar andamento sem pré-aviso. Acto contínuo, num impulso virei-me novamente para o homem que parecia nas mesmas circunstâncias que eu e indaguei-o, recebendo uma afirmativa resposta em inglês fluente e uma assertiva à nossa desorientação. Sem parcimónia, atalhamos pelos degraus que nos davam acesso à segunda classe. À nossa frente espraiou-se um corredor de deleitosa simetria, sem vivalma, inteiramente à nossa disposição. A descontração pela situação foi subscrita pelo americano, quando este resolveu sentar-se e observar que, até mais apurado esclarecimento, apenas estava sujeito ao incómodo de ter que saltitar de lugar em lugar, à medida que fossem surgindo os “donos” dos lugares que, por ora, nós ocupávamos. Acontece que, já em amena e afável conversa, apenas fomos visitados na carruagem por uma passageira que se sentou num lugar a pouca distância. No entretanto, a relação luso-americana foi-se estreitando e ficou mais próxima quando Reymond revelou ser casado com uma portuguesa natural de Aveiro, filha de emigrantes portugueses, aproveitando ainda para soletrar algumas palavras em português como se servissem de visto para pugnar o seu relato. Trocámos impressões sobre a nossa idiossincrasia em relação à capital romena, e só tardiamente nos apercebemos que a senhora que se havia disposto a poucos metros, nos ouvia atentamente. Quando nos lamentamos pela constatação de que poucos romenos se expressavam em inglês, tivemos um feedback imediato oriundo do jovialidade da senhora romena que retorquiu: “se fosse a vocês não estava tão certo disso”. Esmorecia-se a rir com a nossa animosidade. A seu pedido, convidá-mo-la a juntar-se a nós e iniciou-se uma conversa a três. Até aí sabia que o americano tinha vindo à Roménia em trabalho, que no tempo livre percorria a cidade a pé, de lés-a-lés; que quando se deparou com o rio, foi até à sua margem, pegou numa concha de água, observou, cheirou, analisou-a e volvidos instantes, desfez-se da roupa e mergulhou naquelas águas frias, desnudado, em primordial entrega. A despeito disso, invejou-me por estar a viajar sozinho. Recordava as vantagens dessa liberdade e, não sei se por saudosismo, rumava para Brasov, sem viagem de regresso marcada, não obstante a viagem de avião para os Estados Unidos, aprazada para o dia seguinte, porque, na sua opinião, ir sem nada programado dava um cariz aventureiro que ele apreciava, adiantando que podia regressar numa boleia fortuita, a pé, de autocarro, de comboio ou sabia-se lá de que maneira. Comprazia-se com o inesperado. Apesar de já quase rondar os cinquenta anos, quem o observava apercebia-se de que este homem era um hippie vestido de forma classicista, por imposição do ofício e das responsabilidades que a vida acarretava. Já naquele tom afectuoso, perguntou-me: “sabes porque é que não se encontram mulheres a pedir boleia?”. Ainda cedi um pouco ao esforço de reflectir, mas nada me ocorreu. “Porque os carros anteriores já as levaram”, respondeu-me. Ensinou-me ainda qual era a melhor forma de augurar fortuna em boleia. Apesar de nunca ter sido aficcionado pela ideia, achei piada às estratégias, porque, não só deveria dirigir-me a um posto de serviço para uma abordagem directa, como nunca questionar o condutor “por acaso vai para tal destino?”, ao que, qualquer arguto menos interessado em facultar tal oferta, mesmo se dirigindo ou passando por lá, replicaria com um seco e irreversível “não!”. Deveríamos perguntar: “para onde vai?”, pois a probabilidade de se obter uma resposta compatível com as nossas pretensões, era mais certa.
Retomando à conversa tripartida entre uma romena, um português e o americano, esta foi tão profícua e clarificadora que, desde aí entendi melhor a Roménia, todas as incongruências ou contrastes que o país exibia, sobretudo na capital. A senhora residia fora de Bucareste, mas para ali se deslocava diariamente, salientando que preferia sujeitar-se a uma viagem diária de comboio, que viver no fastio de uma metrópole tão asfixiante como Bucareste. Trabalhava na Universidade e foi capaz de, numa forma sucinta, explicar a Roménia, desde o tempo anterior a Ceausescu, até à actualidade, mesmo elucidando a minha estranheza em relação a tentativas de edificar uma Bucareste com tantos sinais comuns intimamente ligados a Paris.
Lamentavelmente teve de nos deixar e fica a recordação de afáveis momentos de partilha que não tive o prazer de vivenciar mais naquela viagem, daquela forma tão perspicaz e atenta de interpretar um país, a europa e o mundo. Era uma mulher poliglota, apta a falar 5 línguas, entre as quais o estranhíssimo turco. Daí em diante, eu e o americano fomos assistindo à penetração da linha férrea por entre a cordilheira montanhosa da Transilvânia que nos foi embevecendo e surpreendendo. Ficará para sempre registada a observação da mais bela floresta em chamas outonais que alguma vez contemplei. Esgares de espanto e cordata partilha com Reymond foram os aperitivos até chegarmos a Brasov, enquanto no ar pairava o temor de um Drácula que afinal não assustava.

Sábado, Novembro 01, 2008

Ele anda por aí


Amanheceu e Praga dilui-se num cenário etéreo quedo. Uma bruma desceu à cidade acompanhada por um frio gélido que fez urgir um esconderijo para as minhas mãos na saída, habituadas que estão a climas sub-tropicais. A temperatura atreveu-se a descer abaixo de zero. Que desfaçatez! Circulando sobre mim próprio, não vislumbro para além do primeiro quarteirão e essa barreira avoluma o insólito da cidade das mil torres. É possível avistar apenas as cúpulas, mesmo que esbatidas por esta densa névoa. Nesta atmosfera propícia, Kafka decerto já fez a sua aparição, pressinto-o tão perto, mas qualquer tentativa de lhe seguir o encalço, gora-se. Ele evola-se como o rio Vltava de hoje, tão gasoso e dissolvido que banha de bruma as margens. Este estado faz empalidecer os contornos da cidade e, nesta suspensão absoluta, sinto a urbe devolvida àqueles que, noutras épocas, a glorificaram. Recordo esse famigerado e enigmático personagem de Franz Kafka, mas ainda Smetana, Dvorak e o inefável monarca Carlos IV que foi um dos principais precursores deste assombroso primado que todos contemplam embevecidos. De entre eles, sei que Kafka ainda vagabundeia por aí, ubíquo; desce o castelo, calcorreia a calçada da cidade velha, evita pontes apinhadas de gente, passando a errar na cidade nova, perdendo-se nas vielas, nas encruzilhadas deste povoado místico. Fá-lo em trajes de antes, mas a sua imagem é um espectro indiscernível. Se qualquer silhueta emana dessa deriva, é um sobretudo que tento resgatar no dobrar de uma esquina, mas a manga escapa-me e não me deixa ver o rasto. Talvez ecoe o sapateado dum personagem apressado que se escuta a desmaiar, mas, volvidos instantes, parece vir na nossa direcção numa toada crescente que, na raia de nos abalroar, parece esquivar-se repentinamente e derivar por outra rua, perdendo-se numa passada audível só para os crentes. Em meu redor assinalo a presença de pessoas pouco preocupadas com estas aparições (incréus?), fotografam sem cessar e não se apercebem da atmosfera que está para além do que as objectivas captam. Não serão emulações de gente que, na época, não compreenderam os desvarios de Kafka? E se Kafka ditou que a sociedade da sua época era absurda e resvalava para o abismo, prevalecendo os medos e as perseguições, aliados a crises de existência e solidão, que sociedade teremos nós agora? Quantos a compreenderão e tomam a sério o legado de Kafka? Prefiro alienar-me dessas inquirições e imiscuir-me neste mundo feérico, antes que o galopante ditador do tempo me alerte para a despedida. Sinto o cheiro a castanhas, outonal e distante, no ocidente. Para lá irei dentro em pouco. E você, meu leitor? Sabe para onde vai, ou também erra?

Quarta-feira, Outubro 29, 2008

A Incerteza do Reencontro



Eu sabia que iria voltar a Praga, mas não esperava que o fizesse assim inopinadamente. Nisto, em pouco menos de nada, eis-me imerso na magia. Agora tudo parece mais resplandecente, sem a nebulosa mística que me asilou, mesmo que faça noite e me gele as mãos. Quando cá estive, havia uma certa bruma primitiva que já não paira, tal como a inocência em viagens que me impeliu para aqui fazer a minha estreia, seduzido pelo assombro que esta urbe despertava no meu imaginário, sem que eu o compreendesse. Ainda não ouvi a melodia Vltava de Smetana. Creio não haver composição que melhor compagine com uma cidade. Mas mesmo que essa sonoridade iniciasse o seu prelúdio, falta a Praga alguma identidade, ou devo ter entrado de rompante nas suas entranhas, sem hipóteses de contemplar a cidade da lonjura, degustá-la paulatinamente enquanto nela penetrava e assistia ao desfile crescente de arte e cor. A modernidade de metropolitanos capacitados para nos ejacular no âmago da cidade deixa-nos desconcertados para acompanhar a toada da emoção: esta amálgama miscigenada de arte que exalta o belo e o harmonioso. Porém, a hora tardia urgia uma chegada assim, mesmo que a escuridão daqui não me cause qualquer temor.
O rio está lá como dantes, enfeitado pelas luzes que descem ao seu leito. Ainda me causa estranheza um rio correr de Sul para Norte, na minha concepção fazem-no em direção ao Sul porque é na região setentrional que moram as montanhas e cordilheiras agrestes. Há que me habituar à prosápia da geografia.
Ainda não avistei Franz Kafka, esse marginal que derivava por aí, percorria a cidade velha, serpenteava a multidão na ponte e fugia por uma ruela menos concorrida, subindo uma escadaria custodiada por trepadeiras coloridas. Agora não o pressinto. Trago comigo uma publicação que reproduz, traduzida, uma carta que o mesmo escreveu ao pai. Li apenas a primeira página, mas devia ter sido presságio para, num ímpeto, anoitecer em Praga. Gosto destes imprevistos, daí a deficiente programação. Não esperava esta ventura. Recordo ainda que a aurora da primeira vez foi musical, era audível uma marcha militar em local incógnito. Essa melodia arremessou-me da cama e abri uma nesga da abertura da clarabóia, à escuta. Deleitei-me com o som, com a atmosfera que criou e que me fez sentir intrincado na real atmosfera de um país do bloco de leste, ou no imaginário que deles criei. E intrometi-me no país mais inconformado com o domínio soviético, daí que a marcha militar me tenha lembrado o movimento de resistência na Primavera de 1968. Agora, volvidos alguns anos, desconheço que surpresas me poderão revelar a alvorada de amanhã, sei que diante de mim terei umas barracas de vendedoras de fruta e produtos hortícolas, bem como artigos para deleite de turista. É uma espécie de mercado ao ar livre que na altura me foi pródigo numas maçãs deliciosíssimas. Talvez não tão deliciosas como as que devorei massivamente na Polónia. Pudera, um quilo delas custava o mesmo que me cobravam para urinar. São as vicissitudes das necessidades. Mas descendo a Praga, a cidade encontra-se engalanada e noto que há um certo estado ufano que lhe retira a genuinidade que conheci. A modernidade inculca-lhe o cosmopolitismo de outras grandes, e sem querer ser escrupuloso, o turismo aniquila-lhe o espírito. Penso que Kafka se oculta noutra Praga mais escusa, ou expiou a alma atormentada e resignou-se à obra que todos consagram e homenageiam. Que mais um mortal pode aspirar no mundo? Não distingo corvos nos aglomerados de árvores dos jardins, deduzo que dormitam, preparando um alvor frenético, ou semeando apenas augúrios tão medonhos como o negro pestilento das suas penas. Salpicam o dia de breu e grasnam histéricos, quiçá Kafka se tenha metamorfoseado numa destas aves, agora dormitando na geada nocturna que pousa na calçada. Ou num insecto, como na sua metamorfose que tributa a solidão e a ruína humana. E antes que a brisa siberiana me agrave a rebelião da minha garganta, recolho-me num lugar esquivo e confortável, vazio, ou não se estivesse em época de calmaria turística. Até consigo amar o frio, para que rios sejam apenas aqueles que carregam águas e não multidões. Amo ainda este anonimato. Até amanhã.

Terça-feira, Outubro 21, 2008

Xeque-Mate



Os parques e jardins públicos são, amiudadas vezes, palco de encontro de gerações a quem a sociedade dispensou funções. Locais com estas características reúnem as condições que melhor permitem a fuga à solidão, a quem busque o aconchego e uma Primavera aparentemente infinda. A caducidade da vida empurra alguns, subjugados pelo estigma das miseráveis reformas, para jogos da batota, e outros baralham cartas, espalham peças de dominós ou simplesmente, acabrunham-se comprazidos pela cor envolvente e a paz que esta fase da vida reclama. Na habituação a ela, os jardins são o asilo. Evocam simbolicamente a Primavera da vida, num Outono que, para eles, urge segregar seiva até à última gota na imperiosa necessidade de manter as folhas e, em suma, adiar o fatal fenecimento. E é tão colorido este fim que se estranha as magnificentes tonalidades amarelas, gemadas, douradas, laranjas, escarlates, magentas e o efeito que delas se gera. Há tanto de belo e grandioso neste fim como nalguma tristeza.
Mas se associarmos à idade um abrandar de tantas capacidades que os anos vão, impiedosamente deteriorando, de espantar foi a minha chegada a Brasov e a primeira visita ao grande parque local. Se não é a capital da Transilvânia, é sem dúvida a cidade mais charmosa desta extraordinariamente bela região. Nos jardins, férteis em cor, deliciava-me com as matizes de Outono e nesse caminhar, fui conduzido pela errância até a uma zona de repouso onde grupos de idosos se posicionavam em mesas a jogar. De pasmar foi o facto de constatar que as mesas tinham a superfície sulcada e pintada em forma de tabuleiro de xadrez e era nela que os engenhosos personagens pousavam as peças do jogo que conservavam para aqueles momentos de mental exigência. E se Alzheimer é uma doença que atinge sobretudo pessoas que se demitem de uma utilização exigente do intelecto, é sabido que exercícios mentais desta natureza retardam o aparecimento desta insuficiência degenerativa; é, pois, plausível que os habitantes desta Roménia dos contrastes desenvolvam resistências a esta enfermidade. É ainda mais verosímil que nestes centros em que o xadrez é rei, se esteja perante uma população “esclarecida”, com apurado sentido crítico e pouco propensa a manipulações baratas de toscas arengas. Com xeque-mates ripostarão quando lhes tentarem seduzir com lérias. E é admirável como podemos ser surpreendidos por detalhes desta natureza em países de emigração, necessitados, como esta Roménia que, no seu seio ainda tem pessoas que continuam a escolher o nosso país na ânsia de um futuro com maior dignidade.
E se os nossos idosos jogassem xadrez e os nossos governantes incitassem a prática apetrechando algumas mesas de jardim com o axadrezado dos tabuleiros? E se estas gerações enveredassem por exercícios desta exigência intelectual? Recordo-me de ter confrontado uma mulher romena com esta particularidade de alguns jardins públicos romenos, depressa menosprezado pela mesma. Não creio que seja de menosprezar, a mim recordou-me o tempo em que ainda realizei algumas partidas de xadrez e da exigência que as mesmas exerciam, levando-me a uma rápida extenuação mental. Porquê? Impreparação? Estou certo que sim, ou aliado ao tédio de me obrigar a uma inércia fastidiosa que o meu ritmo não consente.
A pertinência de algumas perguntas acomete-me após a factual visualização: como seria a nossa população mais idosa se ela se embrenhasse neste tipo de jogos ao invés de cultivar tanta melancolia e inacção? Ao invés de tanto tempo perdido em frente da televisão, envenenando a mente e conspurcando a alma com programas de tão abjecto nível? Gostaria de saber… e também de ser estratega do xadrez da vida.

Segunda-feira, Outubro 13, 2008

Bucareste: cidade dos contrastes



Após uma primeira impressão que, seguramente, não deixou dúvidas a quem me leu e alguma vez pensou fazer um périplo pelo país que celebrizou o Conde Drácula, achei razoável e justo corrigir alguma exasperação revelada após deparar-me com tanta indigência. E se é um facto que a pobreza lusa existe, extrema-se essa ideia pelo profícuo sensacionalismo que alimenta manchetes de jornais e excita a opinião pública na hora de jantar. Chega-se a passar a ideia de que regressamos ao tempo do Estado Novo em que os ditames eram ordenados por um caudilho de conotação religiosa e onde a pobreza era extrema. Efectivamente, os mesmos problemas que nos afligem, fustigam tantos povos por esse mundo fora e a maioria, de forma muito mais profunda. Há uma pequena diferença: habituamos o português a não trabalhar e a não querer mover uma palha.
Mas voltando à Roménia, seria uma heresia duvidar da simpatia do romeno, da sua espontaneidade e de um travo latino que acolhe bem e, regra geral, não se coíbe de oferendar um sorriso em circunstâncias que o proporcionem. Seria ingrato exigir a uma indigência pungente, sorrisos e jovialidade quando, nós próprios, detentores do conforto e assaz bem-estar, tantas vezes exteriorizamos fleuma e melancolia.
Bucareste foi dimensionada em megalómanas proporções, sobretudo o inefável parlamento mandado edificar pelo tirano Nicolae Ceausescu. E se franceses arquitectaram a cidade, daí a resposta às suas afinidades com Paris. A maior lacuna é a inexistência de um rio majestoso. As igrejas ortodoxas, graciosas, portadoras de uma arquitectura bizantina, encontram-se encafuadas pelos faustosos edifícios classicistas. A tirania de Deus foi inferior à dos homens, todavia, sem correspondência com a volumetria, são visíveis sinais de manifestação religiosa, patenteada mesmo por muitos jovens (e demais população) que, ao se cruzarem com uma igreja, benzem-se ritualmente três vezes, encerrando a cruz da direita para a esquerda, o oposto do que fazem os católicos.

Por muito que tente distanciar-me, sistematicamente sou levado a Paris, quer pela conotação desta cidade com o berço do gótico, quer pelas inúmeras analogias entre as duas cidades, mais visíveis na toponímia. E justiça seja feita, realizado mais um périplo pela urbe, descobri a sua zona mais nobre onde museus e algumas salas de espectáculo se agrupam em redor de grandes praças. São edifícios grandiosos que contrastam com o cinzentismo informe e glacial da periferia. E os contrastes não ficam por aqui. Há um sucedâneo deles por toda a cidade, e entre o parque automóvel vetusto, irrompem carros de alta cilindrada, grande parte deles guarnecidos de vidros fumados à moda da Itália napolitana.
Os jardins, embora de uma simetria mais irregular, são belos, mas ao contrário do que sucede em Paris, aqui as urgências diferem: não se bebe cultura, não se lê como em Paris e, a relva, ai de quem a pise. A punição é exemplar e aparece anunciada em placares. Nisto assemelhamo-nos, não na punição, mas na relva para mero adorno.
A pobreza da periferia, que tantas vezes se confunde com a do centro, é medonha. Valeu esta constatação para igualmente constatar o quão solidárias as pessoas se tornam nesta condição. Aqui é evidente e comove. Também é por isto que Bucareste, paulatinamente, me vai seduzindo. Até me recordo da hilariante situação de dois indivíduos correrem para apanhar o eléctrico, cada um deles com uma sanita às costas. Pergunto: hilariante porquê? Se vermos bem, quem é o infeliz que não tem sanita em casa? Aqui não há preconceito, as pessoas vivem e não prestam subserviência à imagem e ao julgamento mesquinho.
E no meio de uma capital europeia, não encontrei um único local onde se vendam postais e demais “souvenirs” para turista. Mais uma razão a favor de Bucareste.
Detenho-me nas fotos, a indigência não permite e adverte-me com o olhar. Eu respeito, condescendendo. A miséria não deve ser alvo de júbilo deleite por quem nela prefere ver arte e menosprezar a sua crueza.
Prestes a me despedir, vou vagabundear por aí, seguro, porque a pobreza aqui não assalta nem aborda para extorquir.

Quarta-feira, Outubro 08, 2008

Hora de Ponta



Bucareste é conhecida pela Paris do Leste. De facto, a maioria das tentativas de cópia, resultaram num desastre e ficaram aquém do original. Diria que o mesmo se passa com esta metrópole. A obstinação caprichosa de ditadores foi suficiente para lhe dar a fama, dotando a cidade de variadíssima toponímia que evoca a cidade luz, muita dela desprovida de qualquer sentido, mas a verdade é que o verdadeiro Arco do Triunfo, erigido em memória das conquistas napoleónicas, indaga qualquer curioso ciente deste facto, a que triunfos este arco romeno faz homenagem? A um triunfo boçal e fugaz de um tirano? Só se for. Bucareste sofre de sofreguidão pelo moderno. Cresce desmesuradamente, depressa, mas o crescimento é desarmonioso, nas ruas são visíveis sinais exteriores de riqueza do, passe o pleonasmo, novo-riquismo. Quanto a mim, não creio que seja novo, mas nas ruas reina uma indigência de pasmar e lamentar. A miséria não tem vergonha, coabita com o lixo, com o tráfego indecoroso, vagueia em todas as esquinas e tem como pano de fundo, um chorrilho de painéis publicitários que cobrem edifícios e impingem marcas, prometendo o paraíso aos fracos. Os casinos também abundam, adereçados de luzes pecaminosas. Sou forçado a compreender esta utilização abusiva da publicidade: a verdade é que os edifícios que não apresentam estas faixas esboroam-se e sucumbem à degradação. Reinam cores ocres e desbotadas que condizem com deterioração geral. Desta cidade, louve-se as faixas de bicicleta que, apesar de existirem em número suficiente, numa cidade plana e propensa para este meio, não foram acompanhadas pela adesão popular. É estranho, mas este romeno não tem comportamento de eslavo, apesar de fazer fronteira com países desta origem, parece latino, comportando-se como tal nos piores aspectos. Terá identidade? Em Bucareste, definitivamente não! Limita-se a copiar o padrão consumista das grandes metrópoles, vale a geração que viveu Ceausescu, essa sim, dotada de uma atitude muito própria, discreta, afável, mas patenteando alguma frieza que os povos do leste em geral documentam. Todavia, estes são mais espontâneos e efusivos, embora a pobreza e a miséria sulque nos semblantes, a expressão abatida e amargurada. Os campos elísios destas bandas têm um particular encanto e, no Outono, as matizes custodiam o tráfego feroz, e romantizam as bermas dos passeios sarapintadas pelo amarelo das folhas que capitulam. Esta é uma Roménia dos empurrões, em que não se é regrado para as filas, em que alguns valores foram esquecidos na ânsia destravada de atingir o modernismo. Procuro outra Roménia, pois esta vive em hora de ponta, está enferma e não dá tempo para desfrutar.

Segunda-feira, Setembro 01, 2008

Roma


É belíssima! Compagina a pesada herança do passado com uma harmonia leve que condescende à nudez crua que exibe; é impúdica a sua pose, desvelando as rugas que sobejam dessa ancestralidade afortunada, algumas imersas de musgos atrevidos, permitindo que mantas de trepadeiras lhe envolvam o peito e no agasalho desta indumentária, uma silhueta semi-nua, de matizes ocres, nos enleve pelo inefável da sua epopeia. Há quem se insurja contra a boçalidade do império, mas este não é mais nem menos que o lugar que lhe deu guarida. Feneceu a grandeza, restam escombros e romanos de outra têmpera.
A cidade encanta no antigo, gosto da acústica das ruas vetustas, do tilintar da água nas abundantes fontes, moldadas por mãos humanas que lhe poliram a rocha no uso copioso. Pisos irregulares de pedra alinhada pedem zelo para que não nos descaia o pé-na-poça, na verdadeira acepção da palavra; falo-vos de uma inusitada chuva que, de primaveril ensejo, recepcionou a minha chegada. E aqui prossigo assimilando o desfile de arte que me custodia o caminhar. São impotentes os ateliers que ponteiam este lugar na ânsia de dar conservação e digno restauro a inúmeras peças que sublimam a glória e as imemoriais conquistas.
Bebo da vetustez que os poros invisíveis das ruínas derramam; sempre as ruínas e o meu fascínio por elas. Na lonjura ecoa o bulício urbano da outra Roma, onde o tráfego é uma azáfama louca. Não serão resquícios da tresloucada ventura da Roma Antiga? Como que possessos por demónios, os romanos exibem um frenesim beluíno na condução, fazendo-o predominantemente em scooters que, reconheça-se, são mais eficientes que veículos de um passageiro munido de uma leva de sofás e chapa a rodos. Se nas motos se assemelham a demónios a fugir do sagrado, têm a argúcia de entender que para transportar uma pessoa, são dispensáveis quatro rodas e uma catrefada de acessórios de sala de estar. Mas não foi essa a Roma que guardo. A minha preferida está para lá do Rio Tevere, descobri-o na errância de uma feliz incursão a essa margem. Dela conto voltar a escrever, para que Roma não fique reduzida a escombros e àquele povo pouco devoto à cidadania.

Domingo, Agosto 17, 2008

Voo das Arábias



Estava detido no vácuo, não ansiando tempestades. Recolhia-me na quietude confortável do presente, sem perturbar os demais ou qualquer vida selvagem que se me delimitasse. Seguia os dias no cinzento que o quotidiano prodigalizava. Porém, foi inimaginável esta placagem, este assombro; quão retumbante encontro que não ambicionava, mas, qual presa de milhentas estratégias exauridas, a fatalidade não enviou arauto. De facto não sei se fui presa ou predador, mas o ardil aplica-se a ambos. O que é incontestável é que este embate me arremessou para as asas do absurdo; nele voei como no dorso de um sonho; inalei o ar e reconheci um odor a pimenta e canela. De longe avistei o berço, a terra prometida onde a alma de uma medusa alada mostrava timidamente os seus dotes, irrompendo inopinadamente por entre uma encruzilhada de mares. Sei que agora carrego a sua essência e ela pesa-me como chumbo, enquanto tento desenvencilhar-me da novidade que se me depara. Pareço desfalecer nesta luta, preferindo entranhar-me novamente no sonho, deixando que o gelo me anestesie do resto, ou do desconhecido que se me mostra. Apercebo-me que sem a tua memória, sem a luz do teu olhar, perdia-me na tempestade branca, na cegueira fria e glacial. Escrevo na incentivo que me deste, pedi-te que ficasses nesses mares, que me deixasses a sós com o feitiço. Preciso degustá-lo, dissecar a sua magia, fraccionar cada passo, esse olhar das arábias, as palavras por dizer e as outras que diríamos se soubéssemos quanto vale um absurdo. Tenho medo! Temo não desvelar uma ponta de assombro, um laivo meritório; sou todo inquietação, sou nostalgia, sou trémulo e medroso… Enquistei pela mesura dos gestos e pela cordata amizade. E o resto? Os meus modos tolhidos, amarfanhados, revelaram outro ser. Uma nulidade que não é real, mas é esta que irradio. Estou possuído por um abalo cósmico, ou é a terra que treme. Quero voltar, quero ver-te na lonjura desses mares, na abundância do teu leito, no recato dessa mímica cândida. Não partas de mim! Habita-me sempre!

Quinta-feira, Julho 17, 2008

Flutuando na História


Apeamos do Vaporetto e Veneza flutua, deixa-se levar na lisura de uma laguna que lhe cadencia um ritmo ondulante. O tráfego frenético não disfarça a ausência do fausto glorioso de outras eras, e não são suficientes as sumptuosidades palacianas para se perceber que essas fachadas já não têm o mesmo brilho. Trata-se de um esqueleto luxuriante, com linhas que emanam riqueza, mas cujo âmago está deteriorado, tal como os edifícios que se desfazem em ruínas, ainda pautados pelas mesmas ondas que lhes chapinham as costuras, e pelos ecos ininteligíveis de uma miscelânea de línguas que circulam por labirínticos becos, canais e pontes, atavismos de mil e um lugares que sonham com o mito. Roncam motores distantes, abafados, rivalizando com o frenesim turístico, enquanto nos lugares raros de calmaria, o rasgar das águas é uma suave melodia.
Veneza despiu-se de identidade e ondula nua, sem um véu que lhe devolva o pudor, a essência que se encavalitou nas cento e tais ilhas que de berço lhe augurou um radioso crescimento.
A graciosidade é patenteada pelo singelo de pontes, canais, pelo charme que se adivinha ao virar de cada esquina, decrépito ancoradouro de uma eternidade metafísica, alicerçada novamente no mito.
O povo reúne-se em campos, poucos deles votados a residentes. A massificação turística assenhoreia-se deles e quebra-lhes a harmonia. Nos escassos, mais escondidos, ainda se agrupam as gerações jovens venezianas que lutam de forma impotente pela renovação do burgo, enquanto a cidade definha solidária com as paredes e apeadeiros marginais puídos pela saudade.
Há um embalo nostálgico, ou um embarcar interno que se faz por gôndolas, a derradeira divisa que nos devolve o autêntico. O manobrar é o mesmo de antes e será o mesmo de amanhã, mesmo que em vez de um veneziano, se equilibre na popa um turco, um romeno, um chinês ou um macho lusitano. O negro e luzidio costado da embarcação contrasta com paredes que se esboroam, pedras que não escondem as rugas da história. A singularidade continua a embevecer, sobretudo na graciosidade que o equilíbrio dos gondolieri recreia na paisagem aquosa. É um desenho singelo que se distingue da exaltação de sumptuosidade e luxúria; e mesmo que Veneza durma sossegada, a maré-alta aflora na principal praça e as águas sobem progressivamente, refrescando a memória, inundando o seio de uma mulher nua que, impávida, arfa e confunde a carícia com o afago de um amante.

Quarta-feira, Julho 09, 2008

Laivos de Fantástico


Mergulhei de chofre num filme surrealista. Sinto-me enfeitiçado pela atmosfera feérica que me enleia, que me baldeia sem dó, alienando-me da crueza do real. Não sou figurante capaz de interagir com gnomos, duendes ou fadas, de forma a me sentir afeiçoado com o meio, mas esforço-me por uma idiossincrasia plena. Tenho noção de que este estado alucinante não é duradouro, antes fugaz como um suspiro. Sustenho o ar e esmero-me por suspender a magia; o fantástico; o insólito! Insisto: nem figurante ficcional, tão-pouco personagem de destaque num enredo que não me personifica. Gosto de levitar na sublimação da fantasia, mas nada que possa preterir os meus sonhos. Eles são a minha guarida. Representar nunca foi meu apanágio, pois habita-me uma timidez esquiva. É-me suficiente esta estância na espera de um prato de salada. No entretanto, e sem a certeza de um prato real, vou bebendo a densa atmosfera que me invade, sem um cheiro definido, mas plena de volatilidade misteriosa. Em meu redor o estarrecimento varre qualquer realismo intrometido. Somente pequenos sinais me compaginam com a realidade; os preços, como se tudo fosse oferecido, não estão à vista do consumidor, como noutro qualquer cenário de país das maravilhas. Apresentam-se nuns caderninhos para o efeito, janotas, obrigando-nos a dedilhá-los em mesas engalanadas, onde reina uma finura desusada que não me colhe simpatia. Ou sou eu que nunca me revi na fidalguia burguesa? A jactância nunca reinou no meu âmago, ou em algo que eu tacitamente sancionasse. Mas há tanto por onde me perder neste assombro. Atalho por esta rua empedrada, iluminada pelo lusco-fusco espectral que transforma o traçado num desenho animado delicioso. Lá em cima sei que a margem do rio é atravessada por uma tripla ponte, branca como a alvorada. Liga o passado ao futuro, ou oferece a este povo a fatalidade de uma escolha, patente nesta trilogia invulgar da vida. Resta a esperança de que a travessia se faça pela ponte certa. Todas exibem um aspecto apelativo, mas o mais caricato é que todas levam ao mesmo fim. Isto evoca-me outras questões mais politiqueiras e/ou religiosas… Dispenso-as.

Retomo a fantasia, antes que uma distracção me abalroe para a fatalidade real. No alto do cume jaz um castelo que me espera. Tinha de haver um castelo num cenário desta magnitude. Posso atingir o seu topo por funicular, mas esta modernice reservo-a aos apologistas do ócio. Preferi galgar o rio ljubljanica para montante, deparando-me com uma ponte custodiada por dragões ferozes que, petrificados em estátua, por vezes revelam trejeitos na sombra que fazem cobrança de portagem aos passantes que ousam atravessá-la, em doses de medo. Será a entrada do inferno ou simples obedientes vigilantes que alertam para o mal? Na minha descrença, detenho-me na passagem e, temendo os maus presságios de uma travessia, desço ao epicentro da magia, volvendo aos alegres edifícios de minucioso recorte que se revelam nas luzes difusas da noite, encobrindo a realidade com um maravilhoso manto. Prefiro de longe a ponte tripla sem simbologias irresolúveis. Normalmente vacilo na dúvida. Neste recuo, cruzam-se-me bicicletas no escuro, riscando-o de luzes famintas que não quebram a atmosfera. Mais além são viaturas reais que evito. Prefiro continuar a vaguear nas vielas de uma cidade catita, que derrama um brilho onírico que desfalece na corrente suave das águas. Neste vagabundear fui surpreendido pela sonoridade de um êxito dos anos oitenta. Ressoava distante, até que identifiquei a janela de onde difundia. Mais adiante, numa graciosa ruela velada por um arco, ouvia-se outro êxito dos anos oitenta, contemporâneo do anterior. Sintomático de que esta urbe permanece suspensa no passado, qual cenário cinéfilo para realizadores do cinema fantástico.

Escolhi banhar-me deste pulsar irreal, enquanto no rio banham-se reflexos que se evadem das ruas ribeirinhas. Os prédios exibem uma peculiaridade que não lhes dá qualquer designação estilística, primam pela originalidade, lembrando criações destinadas ao entretenimento puro e belo que algumas crianças privilegiadas têm. Serpenteio abaixo, acima, num perscrutar atento que capta todo este encantamento, consciente que estas sensações não nos embriagam para a eternidade. Amanhã espera-me outro dia, sem as portagens dos dragões, nem gnomos, duendes ou a densa atmosfera que me acolheu na noite de um lugar que fez parte de uma antiga federação que se livrou de guerras. Porquê? Há cenários cuja harmonia propicia paz. É como se um escudo energético protegesse lugares assim, por isso, será bom acordar em Ljubljana. Regressando a casa e à realidade, ramos de salgueiros pendentes para o rio acenaram-me, não sei se imbuídos da fantasia derradeira, se na deriva de uma suave brisa. Fantasia ou não, ainda questiono o esqueleto humano enjaulado e dependurado numa esquina de um quarteirão da cidade velha. Creio que fez jus a todo o assombramento que, no alegre delírio, esconde sempre um lado fantasmagórico.